Girls on The Front: Alessandra Nunes, o doce e agressivo vocal da banda mineira Vienna

by Jéssica Alves
Alessandra Nunes

GIRLS ON THE FRONT é um quadro criado por 4 redatoras para falar sobre mulheres e para encorajar outras a continuar o seu objetivo na música e, para isso, contaremos a vida e carreira de mulheres no metal brasileiro e internacional.

E hoje vamos até a cena mineira, com a vocalista Alessandra Nunes, da banda Vienna, de Belo Horizonte.

Alessandra ingressou em 2019 aos vocais da Vienna, conhecida banda do circuito mineiro de heavy metal, formada em 2000. Mas além do tradicional som melódico feito pelo grupo, a vocalista acrescentou sua identidade com a voz gutural, que agradou em cheio.

Fã de rock desde a infância, Alessandra despertou cedo o interesse em cantar, começando com Marisa Monte, Elis Regina, passando por Amy Lee (Evanescence) uma de suas maiores influências, especialmente no gótico e chegando até o agressivo vocal de Alissa White-Gluz.

Mesmo com a pandemia de coronavírus, a banda segue firme nas composições e em breve lançará a continuação do o single Anger (E.G.O., Pt.Zero) lançado em em 2019, que resultará em uma trilogia.

Em entrevista à Roadie Metal, Alessandra falou um pouco sobre sua carreira, entrada na Vienna, cena do heavy metal em Belo Horizonte, presença feminina na cena underground e outros assuntos. Confira abaixo:

1 – Gostaria de saber mais de sua trajetória. Conte como você começou na música? E como
despertou a paixão pelo rock e heavy metal?

Desde que consigo me lembrar, sempre gostei de cantar e de escrever músicas. Comecei em 1998,
aos 9 anos, cantando em corais infantis, estudando teoria musical e flauta doce. Também nessa
época, tive o primeiro contato com o metal através do meu irmão mais velho, que era fã de
Metallica e Aerosmith. Cresci sonhando com os palcos, forçando minha família a assistir aos meus
shows improvisados! Aos 16 anos me interessei mais pelo metal melódico e gótico, que foram
minha porta de entrada para outros subgêneros. Surgiram os convites para os primeiros projetos,
sobretudo covers, e mais adiante, aos 21 anos, ingressei em minha primeira banda autoral.
Atualmente componho o line-up do Vienna, juntamente com os músicos Marlon Martins, Misael
Avelar e Manfredo Savassi.

2 – Quais suas influências? Alguma figura, masculina ou feminina, em especial que fez você pensar
“É isso que eu quero, ser cantora”?

Eu já amava as cantoras da MPB desde criança: Marisa Monte, Elis Regina, Cássia Eller. Em meados
dos anos 2000, com o boom do Evanescence, ouvi Bring Me To Life pela primeira vez e minha
cabeça explodiu! Era diferente de tudo que eu já havia escutado em vocais femininos. Amy Lee
tornou-se uma grande referência para mim, arriscando mesmo dizer que a admiração por ela ditou
boa parte dos rumos da minha carreira. Posteriormente, já mais familiarizada com os vários
subgêneros do metal, conheci o Arch Enemy com a Alissa White-Gluz e desenvolvi o gosto por
vocais extremos. Hoje, minhas maiores influências incluem Maria Brink (In This Moment), Cammie
Gilbert (Oceans of Slumber) e Tatiana Shmailyuk (Jinjer). Não posso deixar de mencionar o vocalista
Tony Kakko (Sonata Arctica) que marcou minha vida de inúmeras formas.

3 – Sua voz mescla uma doçura e leveza com a agressividade no gutural. Você começou primeiro
na voz plena e depois partiu para o gutural, ou foi o contrário? E como foi aprender dois estilos
completamente diferentes?

Comecei espelhando-me nos vocais da Amy Lee e de outras cantoras, como Tarja Turunen, Simone
Simons e Sharon den Adel. Como era forte a influência de linhas vocais bem melodiosas, tive uma
grande resistência para começar a escutar vocais extremos. Vencida a obstinação inicial, eu
encontrei no gutural e nos drives a agressividade que eu precisava para me expressar por completo.
Ainda hoje, essa mistura e versatilidade é a identidade que mais me representa.

 4 – Mulher e cantando heavy metal. Isso é uma grande representatividade. Como é poder ser
uma voz representando uma ainda minoria?

É gratificante! Não apenas pela oportunidade de transmitir minhas emoções através da música,
mas também por possuir os meios de me comunicar com outras pessoas ao redor do Brasil e do
mundo. Ter essa plataforma à disposição traz consigo a responsabilidade de transmitir uma
mensagem que seja pertinente e inspiradora para o mundo em que vivemos, especialmente de
forma a encorajar as mulheres a lutarem pelo seu espaço.

5 – Qual sua visão sobre a atual cena de heavy metal em Belo Horizonte? Em especial com a
participação feminina?

Antes mesmo da pandemia, a cena já vinha se aquecendo, e os eventos de rock e metal,
principalmente autorais, passaram a ter cada vez mais espaço. Contudo, o isolamento social fez
com que todos recorressem às redes sociais e plataformas online para manter as atividades. De
certa forma, isso tornou ainda mais acessível o contato entre artistas e público, estimulando as bandas a continuar produzindo e criando conteúdo que atraia o interesse dos fãs. Ainda sinto falta
de mais bandas com mulheres na formação e na produção, e não somente vocalistas. BH é berço de
artistas talentosíssimas que devem ser incentivadas a participar mais da cena.

6 – É inevitável falar de mulheres no heavy metal sem citar o preconceito,pois infelizmente ainda
vivemos em uma cena bastante machista, não importa os feitos das mulheres. E você, imagino que também tenha sido alvo de preconceito no metal. Como é enfrentar isso? O que motiva você a continuar?

É cansativo e frustrante lidar com o machismo, mas é justamente essa a minha motivação para
continuar insistindo. Há uma constante necessidade de afirmar e reforçar o pertencimento das
mulheres a esse espaço, e nem artistas tarimbadas como a Fernanda Lira (ex-Nervosa) conseguem
escapar. No post em que ela anunciou seu rompimento com a banda, pude ler comentários
bastante desagradáveis, condescendentes e até mesmo impróprios. Houve um tempo em que a
mulher no metal era sinônimo de groupie, e essa mentalidade permanece entranhada na cena. É
importante ressaltar que, no caso de mulheres negras, o preconceito é ainda maior. Enquanto a
participação feminina ainda for questionada, continuaremos resistindo.

7  – O que poderia ajudar o underground a ter mais destaque?

Por algum tempo, presenciei episódios de hostilidade e até mesmo sabotagem entre artistas,
oriundos de uma época em que a competitividade era praticada de maneira tóxica. Felizmente, nos
dias atuais, há muito mais cooperação, que certamente deve continuar sendo incentivada. É preciso
que haja iniciativa e colaboração entre as bandas para que o alcance ao público seja ampliado junto
aos produtores e às casas de shows. Também acho redundante enfatizar o potencial das bandas
underground da nossa cena. Contudo, uma atenção especial deve ser dedicada quanto ao capricho
do material divulgado: fotos bem trabalhadas, vídeos criativos, áudio de boa qualidade. Uma
apresentação profissional é indispensável, especialmente no caso de artistas autorais.

8 – O que você acha desse movimento de destaque das mulheres no metal?

Não é um movimento novo, mas nem por isso desnecessário. As artistas mulheres vêm provando
sua competência no metal desde os anos 70, e confirmaram sua capacidade cada vez mais ao longo
das décadas. Não é mais (ou não deveria ser) uma questão de aceitar a presença feminina no meio,
mas ela precisa ser naturalizada, tanto no palco quanto nos bastidores: fotógrafas, operadoras de
som, produtoras, etc. Desconstruir um sistema de valores patriarcais tão enraizado quanto o nosso
leva tempo, energia e trabalho. Por isso esse movimento é tão importante, e deve ser abraçado
pelo maior número possível de pessoas.

9 – E quais os seus planos a partir de agora? Já tem novidades ou projetos, após a pandemia
acabar?

O Vienna tem aproveitado o tempo em isolamento social para trabalhar em novas composições, e
pretendemos lançar um trabalho inédito após a pandemia. Lançamos o single Anger (E.G.O., Pt.
Zero) em 2019, e já adianto que vem uma trilogia por aí! Minha entrada no Vienna trouxe uma
nova identidade que, juntos, estamos trabalhando para desenvolver. Também tenho estudado a
possibilidade de algumas colaborações e também trabalhos solo. Quem sabe? O tempo dirá!

10- Qual conselho você dá para as meninas que estão na batalha ou sonham em seguir carreira
no metal, seja cantando ou tocando?

Você será duvidada por todos, mas, principalmente, por você mesma. Siga sua intuição e não desista! Além disso, lembre-se que a paixão só te levará até certo ponto, o restante é esforço,
evolução e trabalho duro.

11 – Pode deixar um recado para os nossos leitores e também para todos os que te apoiaram e
seguem os seus trabalhos, Alessandra.

Quero agradecer pelo carinho e pelo convite! Muito obrigada pelo apoio que recebo há tantos
anos, de tantas pessoas diferentes! Tenho trabalhado muito para entregar o melhor de mim como
artista, e espero poder deixá-los orgulhosos! Cuidem-se, e bebam água! 😀

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