Entrevista – Sunroad: “Sunroad evoca otimismo, para aperfeiçoarmos o brilho interno que todos nós temos, aparando as arestas que nos atrapalham.”

by Jennifer Kelly

O Hard Rock sempre foi um estilo importante na história do Rock. Aqui no Brasil há muitos nomes que se destacam no estilo, em diferentes subcategorias. Um desses nomes vem de Goiânia e atende pelo nome de Sunroad, com mais de 20 anos de estrada. Warlley Oliveira (vocais), Mayck Vieira (guitarras), Van Alexandre (baixo) e Fred Mika (bateria) lançaram há ano “Heatstrokes”, o 8º álbum da carreira da banda e nós aproveitamos o lançamento para conversar com o baterista Fred Mika, único remanescente da formação original, para nos falar sobre a história da banda e o novo trabalho:

-A banda Sunroad lançou no ano passado o álbum “Heatstrokes”, o 8° de uma carreira de mais de 20 anos, apresentando uma nova formação. Pode nos falar um pouco sobre isso?

Fred Mika: “Heatstrokes” foi lançado em abril/2019, é um disco de transição tanto no som, quanto, como você bem referiu, à mudança de dois integrantes que ocorreram ao decorrer das gravações. Isso tornou esse novo álbum o mais difícil de ser gravado e produzido, já que tivemos que repensar, refazer algumas partes, o que demandou certo tempo, quase estourando o prazo limite que tínhamos pelas duas gravadoras, Roxx Records e MusiK Records e sua co-distribuidora Voice Music

-Como está sendo a receptividade a esse novo trabalho, em formato físico e digital, que foi apontado como um dos melhores lançamentos de 2019?

Os dois últimos trabalhos nossos foram os mais receptivos e os que tiveram mais ampla distribuição física, tanto no Brasil, quanto no exterior. E bem como você citou ainda há a distribuição digital gerada pelas próprias gravadoras.

-Ainda sobre “Heatstrokes”, a sonoridade da banda, cujo Hard Rock é a marca registrada, está caminhando cada vez mais para o chamado Melodic Rock ou AOR. É uma evolução natural?

Sim, na verdade a parte melódica aliada a um certo experimentalismo sempre foi a força motriz da banda. No início da carreira produzimos álbuns de Hard Rock experimental e progressivo, “Heat From The Road”(1999) e “Light Up The Sky-EP” (2001), depois Hard N’Heavy com pitadas de Rock Progressivo e Hard Blues em “Arena Of Aliens” (2003) e “Flying N´Floating” (2006), Hard Rock direto em “Long Gone” (2009). Na sequência decidimos sofisticar a parte melódica mais ainda trabalhando mais as camadas de vozes e arranjos melódicos de guitarras e teclados tanto quanto na estruturação da música. Assim nasceu “Carved In Time” (2013) que apresenta um Hard Rock bem melódico e “Wing Seven” (2017), que segue a mesma ideia só que ainda mais rico em detalhes e mais dinâmico e, por fim, “Heatstrokes” (2019), que também mantém a mesma ideia de sofisticação melódica e estrutural, só que com mais elementos do Hard Rock ainda. O próximo deve continuar por essa ideia só que, digamos, tirando um pouco o pé do acelerador.

-Quais as maiores influências musicais do Sunroad?

O Sunroad teve diversas fases e diversos integrantes e cada um traz suas influências em particular, mas podemos dizer que a ideia comum a todos é o Melodic Hard Rock com um pouco de peso, é verdade.

-Por falar nisso, a relação da banda com nomes mundialmente importantes da cena é bastante estreita. Conte-nos um pouco sobre essa relação.

De 2003 em diante conseguimos um contrato em que os dois álbuns seguintes foram distribuídos nos EUA, Canadá e Europa via Avantage Records, “Arena Of Aliens” (2003) e “Flying N´Floating” (2006), e esse último, a faixa “First Day Without You” ficou no top 5 das rádios universitárias norte-americanas por 6 semanas entre setembro-outubro/2006.. Além disso, naquele mesmo ano, o fundador da pioneira revista Rock Brigade, Edu Bonadia, começou a nos empresariar e isso foi até 2008. Então durante toda aquela época tivemos boa distribuição e contatos com bandas internacionais e seus integrantes bem como distribuidores estrangeiros. A Avantage Records fechou logo após isso e o Bonadia parou de empresariar e isso nos levou a um período de baixa que nos tornou banda independente novamente pelos próximos 4 anos (a banda até teve um período de interrupção em 2011). Mas a semente já estava plantada e, a partir daí, em 2012, voltamos com tudo, com nova formação e nova gravadora e fizemos tours com nomes como Joe Lynn Turner, LA Guns, Doogie White, Mad Max, Whitecross, Stryper, Petra, Narnia, Dr. Sin. No final do ano passado, estivemos em tour com Glenn Hughes. Hoje em dia podemos dizer que temos uma base sólida de fãs no Brasil e um bom reconhecimento em outros países. De lá pra cá também tivemos uma tour com Mike Terrana e estávamos preparando uma nova tour com Mark Boals, que não se concretizou devido à pandemia.

-Por onde já tocaram, fora do Brasil, há um reconhecimento internacional a vocês?

Fizemos uma tour sulamericana pela produtora Delzotano nos anos 2000, e John Sutherland da agência Aztec projeta tours norte-americanas além de nosso booker Eliton Tomasi que projeta tours europeias.

-Maravilha. Voltando aos nossos domínios, percebemos que Goiânia tem representado bem o Metal Nacional. Que outros nomes, além do Sunroad, tem tido destaque relevante?

Tem algumas bandas e boas por aqui, mas creio que além de nós , somente a Heavens Guardian conseguiu essa distribuição nacional e internacional. Se levarmos em conta o Centro Oeste todo temos também que citar o Dark Avenger do saudoso Mario Linhares, ele sim foi o pioneiro do estilo no cerrado. Tinha duas bandas interessantes que eu gostava muito e que poderiam ter ido além mas acabaram cedo, Sacred Heart e Black Rain, uma pena.

-O DVD com orquestra lançado pela Heavens Guardian é sensacional. Eu tenho uma cópia. O som do Dark Avenger é maravilhoso. Há alguma revelação do Metal goiâno a caminho?

O problema é que muitas desistem quando não acham um bom contrato, a gente mesmo já pensou em desistir várias vezes antes de 2003. Revelações aparecem de tempos em tempos mas acabam desistindo. É difícil romper as barreiras que levam ao reconhecimento nacional e/ou internacional hoje em dia, a cultura cover (e que na maioria é formada por músicos que não conseguiram se manter numa banda autoral) tomou conta e isso atrapalha muito as bandas novas, as prováveis revelações. Por outro lado, é um tiro no pé, o problema que banda cover é limitada, você acaba tendo muitos shows, no início, mas seu cachê nunca passa daquilo e sua área de atuação e prazo de validade são imitados, sem falar que você não tem reconhecimento como músico. Já fiz covers ou fui free lancer por uns 8 anos antes do Sunroad, é algo que não compensa, é muito limitante.

-Essa realidade é terrível. Mas, como está sendo o apoio do público, tanto em Goiânia, quanto em outros estados?

Já tocamos em várias cidades e capitais do Brasil, com exceção do Norte e do Nordeste ainda, podemos dizer que temos um bom público no estado de São Paulo, Minas Gerais e Brasília, essa cidade aliás, nos presenteou com o maior público até hoje, mais de 90 mil pessoas no evento Capital Motoweek na Granja do Torto em 2017. Mas já havíamos nos apresentado por lá, Brasília, umas 5 ou 6 vezes antes. São Paulo fomos 3 vezes e o interior de São Paulo 2 vezes, bem como MG interior e Belo Horizonte mais 2 vezes.

-Uau, maravilha! Fred, você recentemente lançou um maravilhoso álbum solo, “Withdrawal Symptoms (2018)”. Pode nos falar um pouco sobre esse trabalho, que contou com várias participações especiais?

A medida que fomos fazendo tours e tendo contatos com muitos bons vocalistas no Brasil e de fora, passei a ter uma grande rede de contatos e claro, levando em conta também o aspecto de empatia, ou seja, tanto sincronicidade musical e pessoal. Há uns três anos amadureceu a ideia de gravar um álbum solo e quando fui ver tinha contato com mais de sessenta vocalistas. Daí resolvi que faríamos um disco onde o instrumental seria todo o núcleo do Sunroad, na verdade eu e o antigo vocalista/tecladista e guitarrista André Adonis. Nós dois compusemos tudo nos mais variados estilos, AOR, Hard Rock, Heavy Metal Neoclássico, baladas, Classic Rock; e daí, então fui contatar os vocalistas, mas só metade deles estavam disponíveis, pois vários estavam em tours ou já comprometidos com outros trabalhos. No final de contas, eu ainda tinha em média uns trinta vocalistas disponíveis e desses escolhi oito (sendo que o próprio Adonis regravou duas faixas e uma delas é a regravação “Miss Misery” do Nazareth). E os vocalistas foram escolhidos conforme o estilo apropriado de composição. Temos então o alemão Michael Voss (Casanova, Mad Max, M.S.G.), o canadense Carl Dixon (Guess Who, Coney Hatch), o francês Steph Honde (Hollywood Monsters), os paulistanos Mario Pastore, Daniel Vargas e Tito Falaschi, o gaúcho Rod Marenna, além dos goianienses Haig Berberian e o André Adonis. Ano que vem pretendo lançar o segundo trabalho solo e com todos os vocalistas inéditos.

-Opa, já vou ficar na expectativa pra aumentar a minha CDteca! O nome “Sunroad” nos remete a uma viagem interna de aprofundamento espiritual, por assim dizer, uma espécie de ligação entre o homem e o cosmos. Qual a relação histórica da banda com o que o nome representa?

A ideia de “estrada do sol” evoca otimismo, para aperfeiçoarmos o brilho interno que todos nós temos e para isso, termos o discernimento de “aparamos” as arestas que nos atrapalham. A consciência de uma visão interior, mas que, ao final, teremos uma visão panorâmica melhor do mundo. Ou seja, reflexões.

-Muito profundo! Apesar de muito talentoso, o músico brasileiro sofre para viver de música. É realmente uma grande vitória estar numa banda de Rock, por mais de 20 anos, e ainda com letras em inglês. Como único membro fundador, como você vê essa situação?

Realmente não é fácil, nunca foi, hehehe. Mas, vivo de música integralmente, divididas em frentes, tanto no Sunroad (shows e merchandising), bem como aqui no meu estúdio fazendo produções, locando o estúdio, locando equipamentos, fazendo sonorização em eventos, ministrando aulas, licenciando e lançando CD’s através da MusiK Records. Enfim, dá para se viver exclusivamente de música desse jeito, em várias frentes.

-Em 2008, o Sunroad lançou a coletânea “Ten Years Treating Deafness”, em comemoração aos primeiros 10 anos da banda. Uma nova coletânea foi lançada no final do ano passado. Fale-nos sobre “Slow Time Kings – The Ballads Collection”.

Os dois últimos álbuns do Sunroad foram licenciados nos EUA, via Roxx Records (tivemos três outros anteriores distribuídos por lá, mas não licenciados). Como a venda desses dois mais recentes superaram as vendas aqui no Brasil, nada mais que justo que tenha uma edição americana, uma coletânea exclusiva das baladas do Sunroad ao longo da carreira. Tivemos, então, esse lançamento/coletânea exclusiva (pelo menos por enquanto) para EUA e Canadá através da Roxx Records.

-Antes de encerrarmos, eu gostaria que nos contasse sobre o envolvimento de vocês com a proteção aos animais.

Os animais fazem parte da classe mais excluída e explorada de todos os seres, o especismo é muito mais gritante que o racismo e o sexismo (e olha que esses dois tem índices alarmantes no Brasil e mundo afora também). Periodicamente fazemos eventos beneficentes em prol dos animais, adquirindo rações, fazendo rifas e sorteios nos shows. E também ocorrem palestras, entre as apresentações, sobre adoção responsável, castração e o mal que o abandono animal faz.

-Que coisa linda! Minha admiração por vocês aumentou ainda mais! Parabéns! Eu queria agradecer a você pelo nosso papo e desejar muito sucesso ao Sunroad e uma longa carreira na defesa do Rock’n’Roll.

Fred Mika: Fico grato pela consideração do convite e suporte de sempre, querida Jennifer, diga-se de passagem, muito interessante seu trabalho de apoio junto às bandas. E, em nome do Sunroad venho dizer que onde houver eletricidade lá estaremos, “keep on rockin´”.

You may also like

EnglishItalianJapanesePortugueseSpanish